Pesquisadora e historiadora Tânia Fernandes, da COC/Fiocruz, fala sobre a importância da vacinação em massa e faz uma relação entre a varíola e a covid-19

A segurança das vacinas, a reação das pessoas ao longo da história, a expertise dos laboratórios e cientistas que pesquisam o assunto e até o movimento negacionista são abordados pela historiadora e pesquisadora Tânia Fernandes, da Fundação Casa Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) em entrevista ao Projeto Wash. Ela também faz uma narrativa histórica relacionando as vacinas contra a varíola, descoberta no final do século 18, e a atual contra a covid-19.

Tânia. Divulgação

Para a pesquisadora, o Brasil tem uma história importante com relação ao recebimento de vacinas. A população acolhe sempre muito bem as vacinas. “E ai vem a questão. A vacina é segura? As vacinas são seguras, feitas por cientistas sérios, com um leque bem grande de laboratórios mundiais que produzem  como  Pfizer, Astrazeneca, Coronavac e uma série de outras sendo fabricadas, cada um na sua expertise. Lembrando que  tanto a varíola como a covid-19 são causadas por vírus. O vírus não é um ser vivo, é uma cápsula, uma molécula que precisa se alojar em uma célula para se reproduzir. Ele não tem condições de viver sozinho.  Há que lembrar que os vírus são muito mutáveis, mudam muito, por isso tomamos vacina contra gripe todo ano, e com a covid deve acontecer mesma coisa”, afirma. E destaca que no Brasil as técnicas já estão normatizadas, o país tem institutos de pesquisas importantes como a Fiocruz, Butantã, órgãos dos governo federal e estadual, que já têm mais de 100 anos de experiência, estudando o assunto.

A pesquisadora reforça porque todos devem se vacinar. “A vacinação em massa impede a circulação do vírus. Quando para de circular, o vírus infecta menos pessoas, que infectam menos outras pessoas. Isso não é imunidade de rebanho, que é uma bobagem muito grande, um erro muito forte. Não existe imunidade de rebanho, até porque não somos rebanho, somos gente. O vírus tem capacidade de reprodução muito rápida. Só a vacinação em massa impede sua circulação e reduz o número de pessoas infectadas e que podem infectar outras. E isso inclui pessoas que não têm sintomas, que não estão doentes, mas guardam o vírus e o transmitem pela boca, pelo nariz. Por isso o uso de máscaras. Nossos espirros, nossa fala disparam muitas partículas e contaminam outras pessoas. Por isso é muito importante usar máscaras e de forma correta, cobrindo o nariz”, alerta. Ela frisa que os cuidados são vacinação em massa, uso de máscaras cobrindo boca e nariz e o distanciamento, sem aglomeração. “Quanto mais grudadas mais possibilidades as pessoas têm de se infectar.”

Tânia ressalva que a vacina não altera o DNA, como espalham as fake news. “Não há como modificar nosso DNA.O vírus se reproduz dentro da gente, mas não altera nosso DNA. Não é possível alterar nosso DNA”, afirma. Ela também destaca a importância da vacinação completa. “A segunda dose é reforço. A pessoa toma a primeira dose, o organismo dá respostas, mas a segunda dose ajuda a produzir mais anticorpos contra o vírus, e isso é muito importante, produzir anticorpos. E certamente teremos que tomar também a terceira dose. Os estudos já perceberam que depois de seis, sete meses, a imunidade começa a cair, então é recomendado tomar a terceira dose. Esse vírus é ainda desconhecido, chegou para arrasar, por isso a corrida para produzir vacinas. E os laboratórios têm expertise, competência para produzir as vacinas. Não adianta tomar a primeira dose e ir para casa feliz. É preciso fazer a segunda dose de reforço, a terceira, a quarta, quinta, quantas forem necessárias. Acredito que todos teremos que tomar a terceira dose. Como foi de início, primeiro os idosos, até chegar aos mais jovens. É essencial fazer a vacinação completa.”

Segundo Tânia, em paralelo à aplicação da vacina estão sendo feitos diversos estudos. “Apesar de políticos dizerem que não, muitos estudos são feitos, sobre o vírus, o comportamento dele, as vacinas. Podemos ter total confiança nesses laboratórios e nesses cientistas”, afirma. Ela comenta também sobre o negacionismo. “Não dá para entender esse movimento negando um conhecimento tão antigo. É um movimento tão absurdo como dizer que a terra é plana. Vou contar um segredo (brinca), a terra é redonda, isso está comprovado. O homem já foi à lua, já olhou de lá, já comprovou”, aponta. “A vacina tem eficácia comprovada, tem 150 anos de comprovação.” A pesquisadora explica que no contexto atual, ”o Serviço Nacional de Saúde foi deixado de lado, com perda grande de dinheiro, pessoas incompetentes indicadas para assumir a tarefa”. Lembra que o Programa Nacional de Vacinas, foi criado na década de 1970 e  hoje conta com 13 vacinas infantis e 18 no total. Cita ainda que hoje o certificado de vacinação é necessário para matrículas em escolas, adesão ao bolsa família, para viajar, no serviço público, nas forças armadas.

 Para Tânia, as razões contra a vacinação são falta de confiança e o negacionismo científico. “E o negacionismo científico é mais que negar que exista a ciência, negar o trabalho dos cientistas. É um discurso de Estado, uma política de Estado, de exterminar a população. Não é maldade dizer isso, é a política de produção da ignorância. Porque as pessoas não são informadas 24h pela televisão que têm que usar máscara, manter distanciamento? Essa incerteza e a produção de ignorância é deliberada pelo próprio governo, que assumiu essa postura, porque foi mais importante vender medicamento que não servia para nada, ao invés de vacinar.   Por isso estamos vendo agora uma situação tão séria como a covid-19”, completa.     

A primeira vacina

Tânia Fernandes conta um pouco da história da vacina. “A vacina antivariolítica era contra a varíola, uma doença muito séria, muito grave que já não existe mais no mundo, que foi erradicada. Não está só controlada, foi erradicada, não existe o vírus circulando em nosso mundo. E porque foi erradicada uma doença tão grave, que matou muita gente ao longo dos séculos? Porque foi possível perceber, ao longo dos anos, que era uma doença que podia ser evitada a partir dela mesma, porque algumas pessoas pegavam a doença e não morriam, outras pegavam e morriam, umas tinham a forma menos grave, outras a mais grave. Isso levou a alguns experimentos ao longo dos anos, sobre como evitar a doença. O de maior sucesso e mais perto de uma vacina, foi em 1798. Um médico, Edward Jenner, de Berkeley, na Inglaterra, observou que havia uma doença que acometia as vacas e era muito parecida com a varíola, que dava umas pústulas, como se fosse uma grande ferida no corpo, deixava marcas, e as vacas tinham doenças parecidas, principalmente nas tetas”, informa  a pesquisadora.

“Jenner observou que pessoas que manipulavam as vacas para ordenar, não pegavam a varíola.  A doença era chamada de cowpox – em inglês varíola é smallpox. Dessa observação, ele resolveu provocar a doença do bovino no ser humano inoculando o líquido que saia dessas pústulas em pessoas. Começou inoculando no próprio filho, tanta era a credibilidade que tinha naquele experimento. Deu certo, inoculou no filho e ele não pegou a doença. Ai começou a reproduzir essa doença como forma de imunizar contra a varíola. Era evitar a doença com a doença. Antes havia a variolização, que era a doença passada de pessoa para pessoa por inoculação. Então veio a vaccine, a vacina da vaca. E  isso se disseminou pelo mundo apesar das dificuldades da época e chegou nas Américas. E assim, ela foi disseminada pelo mundo.  No Brasil, chegou em 1804 e foi distribuída, assumida pelo governo por órgãos parecidos com o Ministério da Saúde, e usadas no País para controlar a doença”, explica, frisando que não foi uma tarefa simples. A vacina extraída diretamente do bovino só chegou ao Brasil em 1897. A varíola foi erradicada no Brasil em 1980, quase um século depois. “Como vou me vacinar com a doença da vaca? Existia muito preconceito contra receber essa vacina  – existe até um quadro famoso de pessoas se vacinando e se transformando em bovinos, bezerros –, medo de que pegassem outras doenças da vaca; as mulheres na época viviam muito cobertas e a vacina era líquida e tinha que ser aplicada no braço ou na perna e era difícil o acesso do vacinador ao corpo da pessoa. Mas mesmo sendo muito questionada por médicos, por leigos, por políticos, grupos religiosos, por muitos movimentos contrários, a vacina venceu esses espaços. E havia movimentos contra outras doenças também”, comenta.

Tânia avalia que no Brasil, o movimento contrário à vacina foi fraco. Mas lembra que houve, em 1904, o movimento conhecido como Revolta da Vacina. “Na época, o Rio de Janeiro, capital federal, estava passando por um epidemia grave de varíola, e também por uma questão de insatisfação popular, por melhores condições sociais. Havia uma tensão social especialmente contra a reforma urbana que estava ocorrendo. Com a proposta de obras de modernização e saneamento, as pessoas que moravam em cortiços, em cômodos na região central  seriam desalojadas para longe de seus trabalhos. Isso causou uma tensão muito forte, junto com a insatisfação por salários e outras questões.  A proposta de reforma era da prefeitura e do governo federal, acolhida por Oswaldo Cruz, um médico e sanitarista importante. Ele conduziu essa orientação no que diz respeito ao saneamento e higiene da população. Esse momento de tensão vem junto com uma legislação que visa assumir a  saúde da população com medidas coercitivas de controle. Os agentes entravam na casa das pessoas para ver em que condições viviam, que eram muito precárias em geral, e aconteciam muitos desentendimentos por conta dessas medidas autoritárias. Lançada no início de 1904 essa legislação foi debatida, discutida, a população insatisfeita, até que em novembro foi lançada outra legislação que obrigava as pessoas a se vacinarem. No meio do controle sanitário vinha também uma obrigatoriedade. A vacinação antivariólica já era obrigatória desde meados de 1800. Era obrigatória desde 1846, mas para as crianças, na expectativa que, ao longo do tempo, elas cresceriam e todos estariam vacinados. Mas em 1904 a lei estabelece que todos deveriam ser vacinados. O certificado de vacinação era solicitado nas escolas, para viajar, para  casar, no serviço público, tentando cobrir toda a população. Isso junto com a tensão social levou a revolta conhecida como Revolta da Vacina, mas o movimento era muito mais que contra a vacina, era contra essas medidas totais, coercitivas, de delimitação da vida das pessoas. O movimento tomou conta do Rio de janeiro, lampiões foram quebrados, bondes virados, tanto que foi apelidada também de revolta dos lampiões. Foram 10 dias de tensão. Essa  revolta que matou muita gente levou a um decréscimo da procura por vacina.  Isso ocasionou outra epidemia ainda mais séria, em 1908. Mas então não houve o movimento contrário, e sim de procura maior pela vacina.”

 Depois de 1908, com o segundo surto de varíola no Rio, a vacina foi assumida de forma sistemática no país. Até que a Organização Mundial de Saúde (OMS) assumiu que era um problema mundial e que essa doença tão violenta tinha que ser erradicada. A varíola já estava erradicada na Europa, Estados Unidos. Na América Latina, só no Brasil havia focos da doença, além de Ásia e África. A OMS se lançou na tarefa de erradicar a doença. O Brasil também fez uma campanha importante de vacinação em massa, na praça, vacinando com pistola e acabou-se com a varíola.  A varíola foi erradicada no Brasil em 1970 e tomada como erradicada em todo mundo em 1980.”

Redação: Delma Medeiros

Revisão: Wilson Namen e Elaine Tozzi